Postado por William Waack em 05 de Junho de 2008 às 13:12
Barack Obama pode parecer jovem para
ser candidato à presidência dos Estados Unidos, mas quem
escreveu uma autobiografia aos 33 de idade, como ele
fez, parece ter o suficiente de maturidade. “Dreams of my Father” é um documento bastante expressivo de quem passou a maior
parte da adolescência tentando entender quem é, e que aos 27 considera-se
pronto para a vida.
E permanece, na
definição brilhante do New
York Times, um homem “capaz
de encantar quem gosta dele e inescrutável para os críticos”.
Jamais subestime Obama, como o fez Hillary Clinton, e jamais subestime seu adversário republicano, John McCain, um herói
de guerra mais durão, resistente, leal e corajoso do que qualquer personagem
de filmes épicos. Obama e
McCain são donos de lições políticas importantes, especialmente a da capacidade de sobreviver e agarrar-se a uma perspectiva.
Mas nos
Estados Unidos de hoje, talvez a história de vida de Obama seja capaz de convencer
melhor o eleitorado.
Obama é considerado
um fenômeno político, dizem sociólogos americanos, muito mais pelas transformações
pelas quais a sociedade americana
está passando. São transformações profundas trazidas por imigrantes e negros e, na
figura de Obama, argumentam
alguns, concentra-se a noção de um tipo de “justiça”. Essa não é, evidentemente,
uma categoria com a qual se pode operar
com segurança nas previsões eleitorais. Mas é uma categoria política
no seu sentido mais amplo.
O inescrutável em Obama, conforme assinalam seus críticos, é saber exatamente o que ele quer.
Alguns dos perfis políticos e psicológicos de Obama
(como o excelente
“The Conciliator”, de Larissa MacFarquhar, publicado no “New Yorker” de 7 de maio
de 2007) mostram uma personalidade que abandonou a indignação e o protesto em favor, quase sempre, da
conciliação e da harmonia. Isso se traduz em que, quando se pensa no Iraque? Ou em que
propostas, quando se pensa na
rodada de Doha? Ou na política
de imigração?
De novo, aqui os amigos de Obama preferem assinalar seu papel histórico,
ou melhor, o papel histórico daquilo que ele
representa.
Nesse sentido, não são tão
importantes, para o julgamento da figura,
aquilo que ele diz ou
até faz mas,
sim, aquilo que cristalizou em sua biografia
política e através de sua biografia social. É um ponto interessante
para sociólogos, antropólogos e cientistas políticos, mas vai dar trabalho
a jornalistas e diplomatas,
os que mais
se interessam em prever o que pode
acontecer no curto prazo.
O Jornal da Globo do dia
em que Obama agarrou a nomeação democrata (foi nesta última terça,
3 de junho) começou dizendo aos telespectadores
que se preparem para uma campanha
política espetacular. Aqui, porém, cabe uma
nota de cautela. Não esperem um duelo entre mocinho e bandido no estilo dos melhores faroestes americanos. A escolha entre Obama e McCain não é entre direita
e esquerda, entre o bem e o mal, entre o progresso e o atraso, entre o liberal e o conservador.
É uma formidável manifestação de um país que reencontra
algumas de suas melhores tradições – entre elas a da
tolerância, a da liberdade do indivíduo, a da oportunidade garantida a todos – trucidadas para quase uma década
de bushismo. Até McCain reconhece isso.